A Questão do Dinheiro – por Luciano Subirá

13/10/2009

Muitos crentes não percebem a importância do ensino nesta área. Na verdade, falar sobre dinheiro nas igrejas em geral causa desconforto. Porém, como é possível não falarmos acerca deste assunto? Quase a metade das parábolas de Jesus o mencionam. Além do Senhor Jesus, vemos que os apóstolos falavam, ensinavam, e corrigiam os crentes no tocante ao nosso relacionamento com o dinheiro. Este não é um assunto sem importância. As Escrituras falam mais dele do que de muitos outros temas que julgamos vitais para uma vida cristã sadia. Howard Dayton, em seu livro “O Seu Dinheiro” (Bless Editora) declara que, na Bíblia, há mais de dois mil e trezentos versículos sobre dinheiro, bens e posses.

É preciso entendermos que o dinheiro em si não é errado, e sim as possíveis atitudes e inclinações do nosso coração. Paulo emprega palavras como “tentação” e “laço” para mostrar como podemos ser enredados nesta área. Ao falar da intensidade desta inclinação do ser humano ao erro, ele emprega o termo “concupiscências loucas e nocivas”.

A Bíblia fala muito sobre a nossa relação com o dinheiro. Não que o dinheiro em si seja o problema, pois as Escrituras declaram que é o amor ao dinheiro que é a raiz de todos os males. Alguém disse que uma pessoa pode ser milionária e não ter amor ao dinheiro, e outra pode ser pobre, porém gananciosa. Esta última terá então dois problemas, pois, além da falta de dinheiro, ela ainda terá dentro de si uma raiz maligna.

Quero insistir nesta afirmação: o problema não está no fato de termos ou não termos dinheiro, e sim em como nos comportamos em relação a ele. A advertência bíblica é de não colocarmos o coração nas riquezas:

“…se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração.” (Salmos 62.10 – ARC)

O que as Escrituras nos ensinam é que não devemos ter o coração no dinheiro, que não devemos ter amor a ele. Não há nada errado no fato de uma pessoa ter dinheiro; errado é quando o dinheiro tem esta pessoa! Vivemos dias em que o consumismo manipula as pessoas. O desejo de ser e ter influencia toda a sociedade. Não estamos fora do alcance desta influência. É por isso que a Palavra de Deus nos adverte:

“Mas os que querem tornar-se ricos caem em tentação e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, as quais submergem os homens na ruína e na perdição. Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores.” (1 Tm 6.9,10)

Além de todas as outras consequências, a pior coisa que estas pessoas experimentam é o fato de se desviarem da fé. Não há prejuízo maior do que este. Reconheço que a maioria das pessoas não contabiliza os valores espirituais. Quando tomam as suas decisões e fazem os seus planos, geralmente o aspecto espiritual é o último a ser considerado. E isto quando chega a ser lembrado! Em nossa sociedade, a ganância e a cobiça têm falado muito fortemente, e não é preciso muito para sermos afetados. Basta permitirmos ser levados pelo padrão da maioria!

A ganância é algo terrível, pois é insaciável. Ela não se realiza, nunca alcança os seus alvos, pois estão sempre se renovando. Tenho visto esta neurose em muitas pessoas. Quando tinham a televisão de quatorze polegadas, queriam a de vinte; quando compraram a de vinte polegadas, passaram a querer a de vinte e nove. E depois a de trinta e três polegadas com tela plana… e a coisa nunca pára! E assim é com os carros, eletrodomésticos, casas, roupas, e tudo o mais! Isto é algo que não tem a ver apenas com a nossa cultura e economia; está ligado à natureza humana. Portanto, sempre foi e será assim em qualquer lugar! O rei Salomão falou acerca disto:

“Quem ama o dinheiro não se fartará de dinheiro; nem o que ama a riqueza se fartará do ganho; também isto é vaidade.” (Eclesiastes 5.10)

As pessoas acham que precisam andar na última moda, que precisam sempre ter mais e mais, mas a ganância é perigosa, pois pode encobrir a voz do Senhor em nossas vidas e fazer com que percamos a fé. A Palavra de Deus declara que muitos chegam à ruína por causa da ganância e da cobiça; traspassam-se a si mesmos com muitas dores. Por causa da ganância, muitos acabam tão endividados que além de perderem completamente a paz, a saúde, e a honra, perdem também a família e a própria alma!

O problema não está no dinheiro, e sim no domínio que ele pode exercer sobre a vida de alguém. As Escrituras nos advertem sobre o tropeço no que diz respeito a isto.

O DINHEIRO PODE SE TORNAR UM ÍDOLO

Paulo mostrou que os cristãos também têm os seus ídolos. Não, eles não são estátuas de gesso ou de madeira; não costumam ser vistos, porque ficam escondidos no coração dos crentes. As atitudes de avareza, ganância, e apego material são ídolos. O apóstolo Paulo denunciou isto, ao chamar a avareza de idolatria:

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.” (Colossenses 3.5,6)

Jesus disse que o que é elevado entre os homens é abominação perante Deus (Lc 16.13-15); e Ele falava acerca da ganância dos fariseus ao fazer esta afirmação. Há pessoas que são tão apegadas ao dinheiro que fazem dele um “deus” em suas vidas. Dão tanto valor às coisas materiais que, perante o Senhor, é como se cultuassem um ídolo em suas vidas.

Ao escrever aos filipenses, o apóstolo Paulo falou de algumas pessoas cujo deus era o ventre (Fl 3.19). Não seria errado dizermos que, atualmente, na vida de muitas pessoas, o seu deus é a carteira!

QUEBRANDO O SENHORIO DO DINHEIRO

A Bíblia é clara ao revelar-nos que o dinheiro pode ser um concorrente ao senhorio de Cristo em nossas vidas:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mateus 6.24)

A única coisa que Jesus mostrou que disputa com o senhorio de Deus em nós foi justamente o dinheiro (ou as riquezas). Dar a Deus não é apenas uma das formas de honrá-Lo, mas também de mantermos esta área sob disciplina.

Já vimos que Deus não está interessado em nosso dinheiro, e sim na honra que Lhe conferimos. Mas por que Deus deseja ser honrado justamente com os nossos bens? Qual a importância deste tipo específico de honra? Quando conseguimos honrar ao Senhor justamente nesta área, que é a que mais domina e prende o nosso coração, estamos cumprindo o verdadeiro sentido da palavra “honrar”: “fazer distinção e colocá-Lo acima dos nossos maiores valores”. Temos que aprender a dar, porque amamos mais a Deus do que aos nossos bens, e não por causa da utilidade da oferta em si.

Fico pensando qual seria a minha reação se eu visse algum irmão na igreja queimando alguns maços de notas de cem reais num culto de adoração (Por favor não faça isto!). Contudo, o que Maria de Betânia fez foi algo parecido! Ela não deixou que fosse aproveitado nem o vaso! Não acredito que devemos cultivar uma atitude de desperdício, mas que devemos aprender a dar, independentemente de haver ou não proveito para o dinheiro dado.

Dar somente para dizermos a Deus que Ele está acima do dinheiro em nossas vidas já seria uma motivação suficiente para ofertarmos. Contudo, além de honrá-Lo, o Senhor ainda permite que o dinheiro seja utilizado no avanço do Seu Reino e que redunde em bênçãos para o que dá. Mas, certamente, precisamos mudar a nossa mentalidade acerca deste assunto e assumir a ótica de Deus para as nossas ofertas. Essa postura do coração será profundamente abençoadora.

Eu gosto da figura encontrada numa das formas de entrega das ofertas na Igreja do Livro de Atos. Vemos as Escrituras Sagradas afirmando que os irmãos não mais deixavam as suas ofertas num gazofilácio, como antes se costumava fazer no Templo, mas agora as deixavam aos pés dos apóstolos:

“Não havia, pois, entre eles necessitado algum; porque todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido e o depositavam aos pés dos apóstolos. Então, José, cognominado, pelos apóstolos, Barnabé (que, traduzido, é Filho da Consolação), levita, natural de Chipre, possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos.” (Atos 4.34,36,37)

“Mas um certo varão chamado Ananias, com Safira, sua mulher, vendeu uma propriedade e reteve parte do preço, sabendo-o também sua mulher; e, levando uma parte, a depositou aos pés dos apóstolos.” (Atos 5.1,2)

Ao fazer esta observação, não estou sugerindo que tenhamos que mudar a forma de entregarmos as contribuições em nossas igrejas, e sim chamar a sua atenção para um detalhe importante. Justamente nesta área financeira, que é tão delicada, eles pareciam dizer que o dinheiro não era senhor, e sim um servo, que ele estava sujeito aos seus pés. É desta visão que precisamos ser imbuídos!

Desta forma, o dinheiro não governará as nossas vidas. Pelo contrário, nós é que o governaremos, como também aos atrativos que ele tenta trazer aos nossos corações. Ele pode ser senhor ou servo na vida do homem. Só depende do coração de cada um de nós!

A Palavra de Deus pode ser sufocada

Uma outra particularidade sobre o dinheiro e os danos que ele pode produzir na vida do cristão é vista na Parábola do Semeador. Jesus fala sobre a semente da Palavra de Deus caindo em quatro tipos de solos, e um deles é o terreno espinhoso:

“E outra caiu entre espinhos, e os espinhos cresceram e sufocaram-na.” (Mateus 13.7)

Os espinhos não parecem tão perigosos à semente no início. O problema é o que acontece com o passar do tempo e o fato de os espinhos não terem sido removidos: eles crescem a ponto de sufocarem a Palavra de Deus. Esta foi a interpretação que o Senhor deu a seguir:

“E o que foi semeado entre espinhos é o que ouve a palavra, mas os cuidados deste mundo e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera.” (Mateus 13.22)

Do mesmo modo que o Diabo apelou para esta área ao oferecer a Jesus (na tentação do deserto) a glória e os reinos deste mundo, assim também ele fará conosco. Porém, da mesma forma gloriosa com que Cristo venceu o Maligno, rejeitando as suas propostas, assim também devemos fugir dos seus atrativos. O Diabo não oferece riquezas porque ele queira o melhor para ninguém, mas justamente por saber quão nocivos podem ser o dinheiro e as riquezas na vida de alguém que se deixa prender por eles.

O DINHEIRO TAMBÉM PODE SERVIR O REINO DE DEUS

Diferentemente de tudo o que vimos até agora e que representa perigo à nossa fé, o dinheiro também pode servir para abençoar. Basta relacionarmo-nos com ele de uma forma correta e usá-lo como “servo”, ao invés de tê-lo como “senhor”. O modelo de como os nossos bens devem servir aos propósitos do Reino pode ser visto no próprio ministério do Senhor Jesus:

“Aconteceu, depois disto, que andava Jesus de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus, e os doze iam com ele, e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, Suzana e muitas outras, as quais lhe prestavam assistência com os seus bens.” (Lucas 8.1-3)

Os apóstolos também seguiram o exemplo de Jesus, ensinando a respeito do assunto e recebendo as contribuições que davam manutenção e condições de avanço ao ministério.

As contribuições, em sua maioria, eram espontâneas, mas houve momentos em que os apelos, aparentemente, ficaram mais contundentes em face das necessidades. O autor da Epístola aos Hebreus elogia os crentes a quem escreveu, pela alegria em aceitarem o espólio de seus bens:

“Porque não somente vos compadecestes dos encarcerados, como também aceitastes com alegria o espólio dos vossos bens, tendo ciência de possuirdes vós mesmos patrimônio superior e durável.” (Hebreus 10.34)

O Dicionário Aurélio define o verbo “espoliar” da seguinte maneira: “Privar de alguma coisa ilegitimamente, por fraude ou violência; roubar, despojar, esbulhar”.

É lógico que os líderes da Igreja não roubaram o povo, nem tampouco o forçaram pelo uso de armas a praticar este nível de contribuição. Mas o verbo usado indica que, no mínimo, houve um apelo contundente para a entrega de bens e posses, uma espécie de “santo confisco”, que não era só aquele que ocorria em face da perseguição da Igreja naqueles dias.

Não estou tentando doutrinar a favor de muitos abusos que se cometem por aí (onde muitos líderes impõem o quanto as pessoas devem ofertar). Estes irmãos hebreus aceitaram com alegria o espólio de seus bens! Eles não foram enganados nem tampouco forçados! Mas o fato é que a Igreja, de modo geral, tornou-se em nossos dias covarde e avarenta – “covarde” por não transmitir a mensagem de que o Reino de Deus é digno do nosso melhor nas contribuições financeiras, pois ela se preocupa demais em agradar as pessoas, esquecendo-se do que o apóstolo Paulo declarou com contundência: “Ou procuro agradar a homens? Se agradasse ainda a homens, não seria servo de Cristo” (Gl 6.10). Muitos líderes falham por não ensinarem e não conduzirem o povo de forma correta nas questões da contribuição e do uso do dinheiro, porque temem tonar-se um alvo de críticas, de zombarias e acusações; “avarenta”, porque nem mesmo a liderança cristã, de modo geral, pode ser considerada como um exemplo de contribuição.

Alguns nem têm a coragem de ensinarem muito acerca do assunto para não ficar feio para eles mesmos. Uma vez que muitos dos próprios líderes não agem com desprendimento, acabam estabelecendo um modelo (oferecido por suas próprias vidas) para o rebanho, o qual, por sua vez, também caminha no mesmo padrão de falta de liberalidade. No entanto, creio que virão dias de uma mudança gerada por uma nova visão e compreensão das antigas verdades bíblicas!

(extraído do livro “Honrando ao Senhor Com Nossos Bens”)

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Autor: Luciano P. Subirá. É o responsável pelo Orvalho.Com – um ministério de ensino bíblico ao Corpo de Cristo. Também é pastor da Comunidade Alcance em Curitiba/PR. Casado com Kelly, é pai de dois filhos: Israel e Lissa.

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