DESPRENDIMENTO FINANCEIRO – Luciano Subirá

18/10/2021

Todo cristão – e não apenas os líderes – deve viver o desprendimento financeiro. Há algumas verdades que precisam ser melhor enfatizadas em nossos dias e acredito que essa seja uma delas.

Houve um tempo no qual, na perspectiva de muitos na igreja, era pecado o cristão ter posses materiais. Não enxergávamos que a questão era o coração. O fato é que alguém pode amar o dinheiro mesmo sem tê-lo e, ainda assim, estar tomado pela raiz de todos os males (1 Tm 6.10).

Com o tempo, começamos a entender que errado não era o crente ter dinheiro, e sim o contrário. Aliás, alguém definiu a avareza assim: “O avarento não possui as coisas; são as coisas que o possuem”.

Enquanto que esse entendimento se mostrou libertador para uns, também se transformou numa desculpa para outros.

Atualmente vejo muitos ministros que defendem demasiadamente o direito de ser abençoado financeiramente. Não sou contrário à ideia de que há um aspecto da benção divina que se manifesta na área material, quer seja na vida do cristão, ou na vida dos ministros de Deus, até porque há respaldo nas Escrituras. Paulo manda Timóteo dizer aos ricos desse mundo:

“nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1 Tm 6.17)

Quando considero a declaração de que Deus “de tudo provê ricamente para a nossa satisfação” (NVI), não posso negar que Ele também nos abençoe dessa forma. O problema, ao meu ver, é quando perdemos o propósito e colocamos o coração no lugar errado.

Jesus disse que não deveríamos nos preocupar com questões materiais e de subsistência básica (comida, bebida e vestuário), mas buscar primeiro – ou seja, antes dessas coisas – o Seu reino:

“Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas; buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”. Mateus 6:31-33

Não nego que haja acréscimos materiais a quem busca o reino de Deus em primeiro lugar. O que me incomoda é que, para muitos, a bênção material deixou de ser uma consequência de quem está focado primariamente no reino de Deus, para ser o motivo de sua busca primária. É quase como se acreditassem que as palavras de Cristo foram: “Busquem em primeiro lugar a benção material e financeira e o reino vos será acrescentado”.

É verdade que há bênção que se expressam em âmbito material e financeiro. Mas também é verdade que devemos cuidar para não ser enredados na mesma área em que podemos ser abençoados:

“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” Mateus 6:19-21

Na verdade, essas palavras de advertência precederam as do acréscimo material prometido por Jesus, que ainda acrescentou:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas”. Mateus 6:24

Já ouvi ministros defenderem, a todo custo, um altíssimo padrão de vida em nome do direito do ministro. Outros, que Deus deu a sacerdotes o melhor das ofertas – isso é verdade (Nm 18:8-19). O que muitos não parecem perceber é que, no mesmo texto de Números o Senhor conclui assim:

“Disse também o Senhor a Arão: Na sua terra, herança nenhuma terás e, no meio deles, nenhuma porção terás. Eu sou a tua porção e a tua herança no meio dos filhos de Israel”. Números 18:20

Parece-me que essa parte que fala dos levitas não poderem ter propriedades como os demais israelitas das outras tribos, quase nenhum ministro quer enfatizar…

Sei que não é uma lei para os nossos dias, mas revela um padrão de valores que o Senhor certamente não instituiu e comunicou em vão. É necessário equilíbrio entre a visão de um Deus que deu o melhor das ofertas aos seu sacerdotes e a advertência do mesmo Deus para que eles não se envolvessem nos negócios como os demais israelitas tinham direito de se envolver.

Por um lado, encontraremos declarações bíblicas que mostram o direito dos que trabalham para Deus. Jesus disse que “o trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10:7). Paulo questionou os coríntios:

“Não sabeis vós que os que prestam serviços sagrados do próprio templo se alimentam? E quem serve ao altar do altar tira o seu sustento?” 1 Co 9:13

E, escrevendo a Timóteo, Paulo também disse:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. 1 Timóteo 5:17,18

Que os que servem ao Senhor possuem direito materiais e financeiros é incontestável.

A questão é que, por outro lado, as mesmas Escrituras que estabelecem tal direito dos trabalhadores do Reino de Deus também advertem sobre o perigo de uma motivação errada. Pedro falou à liderança da igreja de seus dias:

“pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade” 1 Pedro 5:2

Jesus contrastou o bom pastor, que dá a vida pelas ovelhas, com o mercenário que ao ver o lobo, foge (Jo 10.11-13). Qual a diferença entre um e outro? Será que o pastor não tinha nenhum ganho com o seu trabalho? Paulo questionou:

“Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?” 1 Coríntios 9:7

É lógico que o pastor possuía ganho, mas sua missão era mais importante a ponto de se dispor a morrer por ela. Já para o mercenário o mais importante não era a missão e sim o lucro, o interesse pessoal. Portanto, o ponto crucial não é se temos ou não temos direitos, mas se fazemos deles o propósito ou a consequência.

Desde a Antiga Aliança os líderes deviam ser desprendidos:

“Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez; para que julguem este povo em todo tempo. Toda causa grave trarão a ti, mas toda causa pequena eles mesmos julgarão; será assim mais fácil para ti, e eles levarão a carga contigo.” Êxodo 18:21,22

Será que o padrão mudou da Antiga para a Nova Aliança? Claro que não! Já vimos a advertência de Pedro sinalizando isso. Mas Paulo também ensinou sobre a mesma verdade colocando o desprendimento tanto como um traço de caráter como uma qualificação necessária a bispos e diáconos. A quem almejava o episcopado ele exigiu que fosse “não avarento” (1 Timóteo 3.8).

Portanto a pergunta a ser feita aos ministros (e aos que almejam ministério) é: você, em algum momento, estaria disposto a abrir mão de seus direitos e ainda se dedicar, apaixonadamente, à causa do Evangelho?

Paulo fez isso ele disse aos coríntios: “Não usamos desse direito” (1 Co 9:12) e depois voltou a afirmar: “Não me tenho servido de nenhuma destas coisas” (1 Co 9:15). Falou disso enquanto dizia que o trabalhador é digno do seu salário. Observe que ele chama de direito, não de algo errado. O trabalhador possui direitos e seu salário é um deles. A questão não é se temos ou não direito a remuneração, e sim se nosso coração depende ou não do uso desse direito para permanecer no ministério.

Autor: Luciano P. Subirá. É o responsável pelo Orvalho.Com – um ministério de ensino bíblico ao Corpo de Cristo. Também é pastor da Comunidade Alcance em Curitiba/PR. Casado com Kelly, é pai de dois filhos: Israel e Lissa.

 

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