DEUS ME REJEITOU? – Luciano Subirá

03/05/2021

Não devemos desanimar na hora da guerra, mas precisamos saber que isso é um sinal de que estamos no limiar da terra prometida, não de que fomos abandonados!

O que torna esse processo dolorido é que ele aparenta uma rejeição, um abandono de Deus para conosco. É quase inevitável não provar esse sentimento, mesmo conscientizando-nos de que é apenas um momento do tratamento de Deus conosco.

Penso, contudo, que o fato de sentirmos isso tão fortemente não se deve somente ao lado humano, frágil, que sente a necessidade de “curtir” a sua própria dor, mas que o próprio Deus usa esse sentimento para produzir outras coisas no nosso íntimo, para aplicar seu tratamento em nós de forma mais profunda.

Ao observar a vida dos homens que se destacaram servindo a Deus, nunca fiquei sabendo de um sequer, na Bíblia ou na História, que não tivesse passado por um profundo sentimento de rejeição. Parece-me que a sensação de rejeição é uma das ferramentas que Deus usa para aperfeiçoar o nosso caráter, pois ela tem um poder de produzir grandes reações no nosso íntimo.

O próprio Jesus experimentou a rejeição em diversos níveis. João 7.5 diz que nem mesmo os seus irmãos criam nele. Marcos 6.1-6 nos mostra que os seus vizinhos também não criam nele. Um dos Doze o traiu. A própria nação o rejeitou, pois, como escreveu João, “Ele veio para o que era seu, mas os seus não o receberam” (João 1.11). Isaías profetizou que, além dos sofrimentos físicos que Jesus provou no nosso lugar, a rejeição esteve presente:

Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso (Isaías 53.3).

Contudo, o pior sentimento de rejeição não é o que é produzido por homens, mas o que nos dá a impressão de que Deus nos rejeitou. Reconhecemos que os homens são falhos e imperfeitos, e, quando nos rejeitam por alguma razão, podemos buscar um refúgio em Deus. Entretanto, quando aparentemente Deus nos rejeitou, para onde iremos?

Esse tipo de sentimento mexe profundamente conosco. Jesus suportou bem toda a rejeição que ele sofreu. Isaías referiu-se a ele em sua profecia como uma ovelha muda, que não abriu a boca quando levada ao matadouro, pois, diante de toda a rejeição humana, ele não reclamou de nada. No entanto, houve um único instante em que Cristo não permaneceu calado: quando ele bradou na cruz:

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mateus 27.46).

A Bíblia diz que ele “bradou” em alta voz, ou seja, ele “gritou”. E o que é isso, senão um desabafo de alma? Toda rejeição pode ser suportada no nível humano, mas não no divino. Quando parece que fomos rejeitados por Deus, não temos consolo em mais nada! Por que o Senhor permite que tenhamos esse sentimento?

Sabemos que, quando ele nos leva nas “asas da águia” e nos lança ao ar para que aprendamos a voar, o seu propósito não é abandonar-nos, mas, sim, fazer com que cresçamos. Contudo, o sentimento de rejeição nessa hora é inevitável, mas eu creio que Deus aproveita esse tipo de sentimento para produzir algo em nós.

Ele, Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem. (Hebreus 5.7-9)

O escritor de Hebreus nos revela que Jesus, em sua condição humana, passou por um tratamento de Deus e aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu! Você consegue imaginar isso? Jesus Cristo aprendeu obediência pelas coisas que ele sofreu, inclusive a rejeição!

O escritor dessa epístola aplica isso à ocasião em que Jesus orou por um livramento da cruz no jardim do Getsêmani. Em outras palavras, Jesus estava num momento de conflito, no qual parecia que ele estava sendo abandonado por Deus. O evangelho de Mateus declara que a sua alma estava cheia de tristeza até a morte. Isso é rejeição! A angústia e a tristeza até a morte não produzem nenhum outro sentimento, a não ser solidão e abandono! Mas, no sofrimento da rejeição, ele foi aperfeiçoado por Deus. Tal sentimento provocou dentro dele uma reação para com Deus.

Quando Deus nos leva para este lugar, ele quer produzir em nós esse mesmo tipo de reação. É um tempo de crescimento!

Além de Jesus, podemos ver o mesmo exemplo de rejeição na vida do apóstolo Paulo. Depois da sua conversão em Damasco, ele foi a Jerusalém, e a Palavra nos declara que os cristãos tinham medo dele, não acreditando que fosse de fato um discípulo, e não o recebiam (Atos 9.26). Não bastasse a rejeição inicial por parte dos cristãos, Paulo também experimentou em quase todo o seu ministério uma perseguição por parte dos judeus. A sua nação também o rejeitou, razão pela qual ele ficou preso por muitos anos, fazendo que o seu julgamento fosse transferido para Roma. Não bastando isso tudo, durante o tempo em que esteve preso, foi abandonado, até mesmo por alguns dos seus colaboradores:

Procura vir ter comigo depressa. Porque Demas, tendo amado o presente século, me abandonou e se foi para Tessalônica; Crescente foi para a Galácia, Tito para a Dalmácia. Somente Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, pois me é útil para o ministério (2Timóteo 4.9-II).

Paulo declarou que em sua primeira defesa ele ficou praticamente sozinho, mas que o Senhor esteve ao seu lado e o fortaleceu, e isso lhe foi um conforto. É fácil suportarmos a rejeição no nível humano quando o Senhor está ao nosso lado, mas o que dizer quando nos sentimos rejeitados por ele? Em sua primeira epístola aos Coríntios, Paulo desabafa num momento desses e declara que ele achava que Deus havia posto os apóstolos em último lugar (1 Coríntios 4.9). Penso que esse seja um desabafo estar no fim da fila, como quem ficou por para ser atendido depois dos outros. E ele enfatiza: “a nós, apóstolos”, como querendo dizer: “Somos apóstolos! Não devíamos estar no fim da fila, mas no início!”.

Sabemos que Deus não nos rejeita, mas, então, por que ele permite situações que fazem que nos sintamos assim? O que ele quer com isso?

Ele se utiliza desse tipo de sentimento para despertar em nós uma reação, uma resposta para ele. Então, acontece conosco o mesmo que aconteceu com Jesus: ele foi aperfeiçoado pelas coisas que sofreu, inclusive a própria rejeição.

Podemos compreender melhor esse conceito, quando o apóstolo Paulo diferencia a tristeza segundo o mundo e a tristeza segundo Deus. A Bíblia não diz que nunca seríamos contristados e que só viveríamos em alegrias mil. Pelo contrário, ela diz que Deus tem uma tristeza para ser usada em seus filhos.

Contudo, ela nada tem a ver com a tristeza deste mundo. A diferença está não somente em quem a origina, mas também nos resultados que ela produz. Observe:

Agora, me alegro não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que, de nossa parte, nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte (2 Coríntios 7.9,10).

Qual é a diferença entre a tristeza segundo Deus e a tristeza segundo o mundo? Uma conduz à vida; outra, à morte! Como a tristeza segundo Deus pode produzir vida em mim? Pelas reações que ela provoca em mim. Paulo fala que essa tristeza segundo Deus havia produzido uma reação interior positiva nos coríntios:

Vede quão grande solicitude operou em vós o serdes entristecidos segundo Deus; sim, que defesa própria, que indignação, que temor, que saudade, que zelo, que vingança! Em tudo destes provas de ser inocentes neste negócio (2 Coríntios 7.11, Tradução Brasileira).

Note as palavras “defesa”, “indignação”, “temor”, “saudades”, “zelo” e “vingança”. Eu diria que o sentimento de rejeição provoca em nós uma reação desses sentimentos mencionados pelo apóstolo.

No brado de Jesus na cruz, ele mostrou saudades do Pai, indignação pelo aparente abandono, temor por estar sozinho e defesa própria. As reações podem ser claramente vistas.

No caso de Paulo, que desabafou que foi colocado por último, isso não foi diferente. Havia a indignação do fim da fila, as saudades de quem aparentemente já esteve no início da fila, a sua defesa própria, demonstrando que ele era espiritualmente melhor que os coríntios, o seu zelo pelo Senhor sendo suscitado, e a reação de um combate constante e forte.

A rejeição produz em nós a reação do nosso valor próprio, da nossa autoestima. E por que Deus a permite? Para nos ensinar a autonegação. Não há um crescimento espiritual genuíno sem que haja uma autonegação. Na hora em que Deus nos ensina a voar, além de nos dar a maturidade de viver a vida cristã em sermos carregados no colo, Deus ainda faz isso de um modo em que podemos reconhecer o seu tratamento em nós.

Paulo declarou que, em certa ocasião, ele orou três vezes sobre um assunto e não foi atendido por Deus. Essa aparente rejeição, no entanto, era um tratamento de Deus em sua vida, para ensinar-lhe a caminhar em humildade. Tratava-se do seu espinho na carne, relatado em 2 Coríntios 12.7-10.

O agir de Deus continua sendo invisível aos nossos olhos! As suas formas de agir em nós são tão variadas! Até mesmo as nossas próprias crises, como as de rejeição, podem ser um tempo em que ele fará que cresçamos em sua presença. Embora o agir de Deus nos dê a impressão algumas vezes de ser tão incerto e imprevisível, uma coisa temos como certa: ele jamais nos abandonará! Ele está conosco todos os dias, até a consumação dos séculos.

Há momentos em que aparentemente ficamos sozinhos mas é justamente nessas ocasiões que o nosso Pai celestial nos carrega no colo. Precisamos compreender essa aparente rejeição, que pode ser mais um instrumento do agir invisível de Deus na nossa vida!

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Autor: Luciano P. Subirá. É o responsável pelo Orvalho.Com – um ministério de ensino bíblico ao Corpo de Cristo. Também é pastor da Comunidade Alcance em Curitiba/PR. Casado com Kelly, é pai de dois filhos: Israel e Lissa.

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